Prontuário eletrônico não cumpriu a promessa: por quê

O prontuário eletrônico prometeu tempo de volta e trouxe mais uma camada de burocracia — veja por que o problema não é a tela, é o que foi construído nela.

Dr. Thiago Rangel
Dr. Thiago Rangel
Médico e fundador da Avora · CRM 52-0119973-0/RJ
08 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Um prontuário de papel antigo e um monitor de computador lado a lado sobre uma mesa vazia, sugerindo que a burocracia apenas mudou de lugar

Prometeram que a tela ia te devolver tempo. Em vez disso, você trocou a letra ruim no papel por uma lista de campos obrigatórios que não fecham sem três cliques. O prontuário eletrônico não é mais rápido: ele só move a burocracia para outro lugar, e esse lugar você carrega no bolso.

A resposta curta para por que isso aconteceu está numa frase de dois pesquisadores americanos, publicada no mesmo ano em que o tema começou a virar debate público: o prontuário eletrônico foi desenhado para faturamento e conformidade regulatória, não para reduzir o trabalho de quem atende. É a tese central de Electronic Health Records: An Unfulfilled Promise and a Call to Action, publicado nos Annals of Internal Medicine em 2016.

O resto deste artigo mostra como essa escolha de projeto virou a sua tarde.

Para que o prontuário eletrônico foi construído, de verdade?

A promessa vendida há duas décadas era simples: acesso rápido ao histórico, menos erro de caligrafia, troca de informação entre serviços. Parte disso aconteceu.

Mas o motor por trás do desenho do sistema não foi o tempo do médico. Foi a necessidade de documentar o suficiente para justificar a cobrança e provar conformidade regulatória diante de auditoria. O artigo dos Annals chama isso de promessa não cumprida — e aponta o call to action que falta: redesenhar o sistema em torno de quem atende, não só de quem audita.

Isso explica um padrão que se repete em qualquer EHR do mundo: o campo que você mais usa raramente é o mais fácil de preencher. O campo mais fácil de preencher é o que o sistema de faturamento precisa.

O tempo não diminuiu — ele só trocou de endereço

O estudo mais citado sobre o assunto fez algo raro: cronometrou médicos de quatro especialidades, em consultório real, hora a hora. É o Allocation of Physician Time in Ambulatory Practice, publicado também em 2016 nos Annals of Internal Medicine.

O achado central: para cada hora de atendimento direto ao paciente, o médico gasta quase duas horas adicionais em trabalho administrativo e de prontuário eletrônico, boa parte dela fora do horário de consulta. A promessa era inversa — a tela devolveria tempo. Na prática, ela redistribuiu o tempo entre o consultório e a mesa de casa.

Essa redistribuição não é um acidente de implantação malfeita. É a consequência direta de um sistema desenhado para gerar registro completo o bastante para sustentar cobrança — não para ser rápido de preencher.

Mãos digitando em um teclado diante de uma tela coberta de pequenos campos de formulário e caixas de seleção

O retrato no Brasil é parecido, com uma variável extra

No Brasil, a dificuldade não é só o desenho do campo — é que a transição nunca se completou de fato. Uma parcela relevante dos estabelecimentos que adotaram prontuário eletrônico continua mantendo cópia em papel em paralelo, o que significa documentar duas vezes em vez de uma.

Documentar duas vezes em vez de uma não é neutro: o tempo gasto no prontuário eletrônico sobe expressivamente quando há falta de treinamento adequado na implantação do sistema. Estudos apontam que esse custo inicial não é uma falha temporária — é um sinal de que o sistema não foi desenhado para quem está usando.

"Tethered to the EHR": a amarra que a literatura já nomeou

Existe um termo na literatura internacional para o que acontece quando o médico fica preso à tela em vez de livre dela: "tethered to the EHR" — amarrado ao prontuário eletrônico. A expressão descreve exatamente a sensação de quem sai da consulta e continua documentando, por horas, fora do expediente.

O dado mais recente e revisado sobre o peso dessa amarra vem de uma organização canadense de saúde mental, que acompanhou médicos por cinco anos de engajamento ativo com o problema. É o Assessing the Impact on Electronic Health Record Burden After Five Years of Physician Engagement, publicado na JMIR Human Factors em 2025.

O achado que mais importa para quem está exausto hoje: 61% dos médicos em burnout atribuíram esse esgotamento diretamente ao prontuário eletrônico — não à carga de pacientes, não à especialidade, ao sistema em si.

Por que não é fácil medir — e por que isso também é um sinal

Um ponto incômodo: a própria literatura científica tem dificuldade de comparar estudos sobre "carga de documentação" entre si. Uma revisão de escopo publicada no Journal of the American Medical Informatics Association, a Measurement of clinical documentation burden among physicians and nurses using electronic health records, de 2021, mapeou como diferentes grupos medem esse peso — e a conclusão é que não há um padrão único, o que dificulta comparar hospital com hospital, país com país.

Isso não invalida o problema. Pelo contrário: mostra que a dificuldade de documentação é grande e difusa o bastante para que pesquisadores do mundo inteiro ainda estejam tentando definir como medi-la com precisão.

Quando o sistema é desenhado para a especialidade, muda

Existe um contraponto que vale registrar. Quando um EHR é construído sob medida para uma especialidade específica, em vez de ser um formulário genérico adaptado depois, a experiência muda de figura.

É o caso do EpiToMe, um prontuário eletrônico desenvolvido especificamente para cuidado em epilepsia — descrito no estudo A Bespoke Electronic Health Record for Epilepsy Care, publicado como preprint em 2020. O ponto não é repetir aqui o que o estudo encontrou linha a linha — é o que o próprio fato de existir já demonstra: dá para desenhar diferente. A burocracia atual não é uma lei da física da tela; é uma escolha de projeto que pode ser refeita.

O que isso muda na sua rotina, concretamente

Três consequências práticas de um sistema desenhado para faturamento, não para o médico:

  • O campo obrigatório raramente é o campo clínico mais útil — é o campo que a auditoria exige.
  • A interoperabilidade entre sistemas concorrentes é baixa, então informação que já existe em outro serviço muitas vezes precisa ser redigitada.
  • Quando falta treinamento na implantação, o tempo de documentação tende a aumentar antes de qualquer ganho aparecer.

Nenhuma dessas três coisas é culpa de quem atende. São decisões de arquitetura tomadas antes de você entrar na sala.

O que dá para fazer com essa informação

Não existe ajuste pessoal que resolva um sistema desenhado para outra finalidade. Mas existe diferença entre usar o prontuário eletrônico que a instituição te deu sem revisão nenhuma e usar uma camada que organiza a documentação de forma mais próxima do seu raciocínio clínico.

A distinção está em o quanto o fluxo de preenchimento foi pensado para quem escreve, e não só para quem audita depois. Quando o template se aproxima do seu jeito de pensar, o tempo gasto diminui — não porque a tela ficou mais rápida, mas porque o desenho parou de trabalhar contra você.

É exatamente aí que entra a diferença entre uma ferramenta de documentação pensada para reduzir clique e campo redundante, e um formulário genérico que foi só transportado do papel para a tela. A tecnologia em si nunca foi o problema — o problema é para quem ela foi desenhada primeiro.

Fontes

Cada referência abaixo foi conferida na base original antes da publicação.

  1. Allocation of Physician Time in Ambulatory Practice: A Time and Motion Study in 4 Specialties — Annals of Internal Medicine, 2016
  2. Electronic Health Records: An Unfulfilled Promise and a Call to Action — Annals of Internal Medicine, 2016
  3. Assessing the Impact on Electronic Health Record Burden After Five Years of Physician Engagement in a Canadian Mental Health Organization: Mixed-Methods Study — JMIR Human Factors, 2025
  4. Measurement of clinical documentation burden among physicians and nurses using electronic health records: a scoping review — Journal of the American Medical Informatics Association, 2021
  5. A Bespoke Electronic Health Record for Epilepsy Care (EpiToMe): Development and Qualitative Evaluation (Preprint)

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