Modelo de primeira consulta: 7 seções que CFM exige

As sete seções que não podem faltar no registro da primeira consulta — e por que a ausência de qualquer uma delas custa tempo, defesa jurídica ou dinheiro.

Dr. Thiago Rangel
Dr. Thiago Rangel
Médico e fundador da Avora · CRM 52-0119973-0/RJ
03 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Formulário de primeira consulta em branco dividido em sete seções sobre uma mesa vazia, com uma caneta pousada sobre ele

A primeira consulta de um paciente novo dura o mesmo tempo que a de um retorno — mas o registro dela tem um padrão mais rígido. É nela que o prontuário precisa carregar mais informação, e é nela que falta mais informação quando alguém vai conferir depois.

A resposta direta: existem sete seções que precisam aparecer no registro da primeira consulta para que ele sustente você — numa auditoria, numa glosa ou, no pior cenário, num processo. Nenhuma é complexa. A maioria, você já preenche de cabeça. O problema é quando alguma fica incompleta sem você perceber.

Este artigo é o checklist dessas sete seções, o que cada uma precisa conter, e onde a ausência delas custa mais caro.

Por que a primeira consulta pede mais rigor

No retorno, você já tem a história do paciente registrada em consultas anteriores — o registro daquele dia pode ser mais enxuto, porque ele se apoia no que já existe.

Na primeira consulta não existe nada prévio para se apoiar. Tudo o que você não registrar ali, simplesmente não existe para quem ler o prontuário depois — outro médico, um auditor, um perito.

É também o documento que mais aparece quando alguma coisa dá errado. Em uma ação por erro médico, o juiz decide sobre documentos, e o prontuário costuma ser o principal — às vezes o único. Declaração do médico sem amparo num prontuário bem preenchido pode não bastar para evitar condenação.

As sete seções, uma por uma

1. Identificação completa

Nome completo, data de nascimento, documento de identificação, endereço e contato. Parece óbvio, mas é a seção que mais aparece incompleta quando o paciente é encaixado às pressas — e é também a primeira coisa que um auditor confere.

2. Queixa principal (QP)

O motivo que trouxe o paciente, na linguagem dele, de forma objetiva. Uma frase curta já resolve. O erro comum aqui não é a falta — é a queixa principal genérica demais para servir de ponto de partida para o resto do registro.

3. História da doença atual (HDA)

Início, duração, características do sintoma, intensidade, fatores de piora e de melhora. É a seção mais longa, e a que mais sustenta o raciocínio clínico registrado.

4. História patológica pregressa (HPP)

Doenças crônicas, cirurgias, hospitalizações anteriores e medicamentos em uso. Esta é a seção que mais gera problema em retorno de outro profissional — sem ela, quem atende o paciente depois de você está decidindo às cegas.

5. História familiar

Doenças relevantes na família. Em geral breve, mas não pode ser pulada — é o que conecta o quadro atual a um contexto mais amplo.

6. História pessoal e hábitos

Ocupação, estilo de vida, hábitos relevantes. É a seção mais fácil de encurtar demais — e também uma das que mais aparece pela metade quando o tempo de consulta aperta.

7. Exame físico e hipóteses diagnósticas

O que foi examinado, o que foi encontrado, e o raciocínio que liga o achado à hipótese. É aqui que o registro deixa de ser uma lista de informações e vira, de fato, um documento clínico.

Mãos preenchendo um formulário médico ao lado de um documento de identificação sobre a mesa

A tabela que resume o checklist

Seção O que precisa conter Erro mais comum
Identificação Nome, nascimento, documento, contato Dado incompleto no encaixe de última hora
Queixa principal Motivo da consulta, objetivo Queixa genérica demais
HDA Início, duração, intensidade, fatores Falta de cronologia
HPP Doenças, cirurgias, medicação em uso Medicação em uso omitida
História familiar Doenças relevantes na família Seção pulada por brevidade
História pessoal Hábitos, ocupação, estilo de vida Registro superficial
Exame físico + hipóteses Achados e raciocínio diagnóstico Hipótese sem achado que a sustente

Onde a ausência vira dinheiro perdido

Cada seção que falta tem uma consequência concreta, e nem sempre é jurídica — às vezes é financeira, e mais rápida de acontecer.

Glosa por documentação insuficiente acontece quando falta laudo, falta assinatura, ou o registro clínico está incompleto — e é exatamente isso que uma primeira consulta mal documentada produz. O código TISS 3052 existe justamente para "documentação incompleta ou ausente"; o 3217, para justificativa insuficiente.

Na maioria dos casos, o serviço foi prestado de verdade — o problema é que o dossiê que provaria isso chegou incompleto. A glosa, nesse sentido, é um problema de registro, não de atendimento.

Identificação e conformidade com normas

Identificar o paciente com documento de identidade não é burocracia decorativa — é o que torna o prontuário atribuível de forma inquestionável a uma pessoa específica, o que importa quando o registro é usado como prova.

Quando a primeira consulta envolve gravação ou transcrição por inteligência artificial, soma-se a isso o consentimento informado: o paciente precisa saber que a ferramenta está sendo usada como apoio, e pode recusar. Isso está regulado com mais detalhe na Resolução CFM nº 2.454/2026, abordada em outro artigo deste blog, mas vale a lembrança aqui: a primeira consulta é também a primeira oportunidade de criar esse hábito.

Quanto tempo isso leva — e quanto tempo isso evita

Preencher sete seções com atenção, à mão, em meio a uma consulta, é parte do que compõe o tempo administrativo que já aparece em outros artigos deste blog: médicos passam 2,3 horas de trabalho administrativo a cada 8 horas de assistência — quase 1 hora a mais em casa, à noite (Sinsky et al., 2016).

O ganho de ferramentas de apoio à documentação, segundo o que a literatura hoje sustenta, está em reduzir esse tempo de registro — não em prometer que o paciente ficará mais saudável por causa disso. É uma distinção que vale manter clara.

Checklist rápido para usar na próxima consulta nova

Antes de fechar o registro de uma primeira consulta, confira:

  • Identificação com documento conferido
  • Queixa principal em frase objetiva
  • HDA com início, duração e fatores de piora/melhora
  • HPP com medicação em uso explícita
  • História familiar, mesmo que breve
  • História pessoal com hábitos relevantes
  • Exame físico ligado às hipóteses diagnósticas

Lembrando que o prontuário, uma vez fechado, precisa ser guardado por mínimo de 20 anos a partir do último registro — então o cuidado de hoje é também o que te protege daqui a quinze anos, se alguém vier perguntar.

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