Médicas adoecem mais: por que quase ninguém age

Médicas têm risco de suicídio 47% maior que mulheres fora da saúde — entenda o que agrava esse número e por que a resposta institucional ainda não chegou.

Dr. Thiago Rangel
Dr. Thiago Rangel
Médico e fundador da Avora · CRM 52-0119973-0/RJ
22 de setembro de 2026 · 6 min de leitura
Ilustração de uma médica sentada sozinha em um corredor de hospital à noite, com expressão de cansaço

São 2h da manhã e a médica de UTI ainda não conseguiu dormir depois do plantão — não porque falte cansaço, mas porque falta desligar. No dia seguinte tem residência, dupla jornada em casa, e uma denúncia de assédio que ela decidiu não fazer.

A resposta direta: médicas têm risco de suicídio 47% maior que mulheres fora da medicina, segundo dados do Medscape. Não é só cansaço. É uma combinação de fatores estruturais — assédio, dupla jornada, estigma — que a instituição médica brasileira ainda não enfrentou de forma organizada.

Este artigo mostra o que os dados dizem sobre esse risco, o que o agrava especificamente para mulheres na medicina, e por que a resposta institucional continua pequena diante do tamanho do problema.

Quanto maior é o risco, exatamente?

O dado mais direto vem do Medscape, citado pelo Portal Afya: médicas têm risco de suicídio 47% maior que mulheres que trabalham fora da área da saúde.

Esse número não aparece isolado. Ele se soma a um retrato mais amplo do adoecimento mental na profissão: 45% dos médicos no Brasil têm ao menos um transtorno mental — ansiedade, depressão ou burnout —, segundo o estudo Qualidade de vida dos médicos 2025, da Afya.

O que os estudos de gênero acrescentam é que, dentro desse quadro já grave, o risco não se distribui de forma igual entre homens e médicos e mulheres médicas.

Por que a diferença começa ainda na residência

Um retrato claro dessa desigualdade aparece já na formação. Um estudo com residentes da USP, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, mostrou queda expressiva na qualidade de vida de mulheres médicas durante a pandemia — em gerenciamento de tempo, saúde psicológica e saúde física.

Os números por gênero, dentro desse mesmo levantamento, mostram uma distância que chama atenção:

Indicador Residentes mulheres Residentes homens
Relatam gerenciar bem o tempo 12% 46,2%
Apresentam sonolência patológica 74,2% 37,2%

A diferença não é sutil. Uma residente em cada oito diz conseguir administrar o próprio tempo — contra quase a metade dos residentes homens. E três em cada quatro convivem com sonolência em grau patológico, quase o dobro da proporção masculina.

Ilustração de residentes mulheres em um corredor hospitalar, em pé próximas umas das outras mas com expressões de isolamento

O assédio que raramente vira consequência

Dupla jornada e sono perdido são uma parte do quadro. A outra parte, menos falada, é o assédio.

Levantamentos citados pelo Portal Afya indicam que 60% das médicas já sofreram algum tipo de assédio — moral ou sexual — no ambiente de trabalho, e 70% relataram ter enfrentado preconceito de gênero na profissão. Mais da metade, 51,14%, relatou ter sofrido agressões verbais ou físicas.

O dado que mais expõe a falha institucional é o que vem depois da denúncia: quando médicas levam esses casos a superiores, apenas 11% veem algum resultado.

Um estudo específico sobre residência médica, publicado na Revista Brasileira de Educação Médica, encontrou prevalência de 41,9% de assédio moral entre residentes — com mulheres relatando mais sequelas psíquicas (58,5%) e mais sequelas profissionais (39%) que os homens no mesmo levantamento.

Denunciar, nesse cenário, raramente muda o desfecho. E é essa ausência de consequência — não a falta de coragem para denunciar — que sustenta o silêncio.

O estigma que impede pedir ajuda

Existe uma cultura profissional específica que desencoraja o médico — e a médica, com mais força — a buscar apoio psicológico ou psiquiátrico. Ela aparece descrita há décadas: um estudo de 1998 publicado na Revista da Associação Médica Brasileira já discutia o suicídio entre médicos e estudantes de medicina como um tema tratado com silêncio dentro da própria categoria.

Quase três décadas depois, o Portal Afya chama esse mesmo tema de tabu — o que sugere que a conversa avançou menos do que o tamanho do problema exigiria.

O padrão se repete: quem cuida da saúde dos outros tem dificuldade em admitir, para si e para os colegas, que também precisa de cuidado.

O que isso significa na prática — e o que não

É importante ser preciso aqui: os dados apontam fatores associados a maior risco entre médicas — assédio, sobrecarga, dupla jornada, ausência de resposta institucional às denúncias. Eles não isolam uma única causa, e este texto não tem a pretensão de fazer esse isolamento.

O que os números sustentam, com segurança:

  • O risco de suicídio entre médicas é substancialmente maior que entre mulheres fora da medicina.
  • Existe uma desigualdade de gênero mensurável dentro do próprio adoecimento médico — na sonolência, na gestão do tempo, no assédio sofrido.
  • A resposta institucional às denúncias, quando existe, raramente produz consequência — só 11% viram resultado.

O que os dados não sustentam, e que este blog não vai afirmar: que existe uma causa única, ou que uma mudança isolada de rotina resolve o problema. Adoecimento mental é multifatorial, e tratá-lo como clínica não é o papel deste texto.

O que muda a curto prazo — e o que exige mais que isso

Parte do que sobrecarrega a rotina médica é estrutural e sai do alcance de qualquer ferramenta: escala de plantão, cultura de assédio, resposta institucional a denúncias. Isso exige política de gestão, não aplicativo.

Mas há uma fração da sobrecarga que é operacional — e essa, sim, tem espaço para ser reduzida. Pajama time, o tempo de documentação levado para casa depois do expediente, está entre os fatores associados a menor satisfação e maior chance de burnout, segundo evidência já discutida aqui no blog.

Reduzir essa fatia não resolve o assédio nem muda a cultura da denúncia sem consequência. Mas devolve tempo — e tempo é, com frequência, a primeira coisa que falta para procurar ajuda, dormir, ou simplesmente parar.

Por que "ninguém está fazendo" ainda é a descrição mais honesta

O título deste artigo é direto de propósito: a resposta institucional ao adoecimento de médicas ainda não é proporcional ao risco medido. Denúncia de assédio sem consequência em 89% dos casos não é falha pontual — é padrão. Tabu em torno do suicídio médico documentado há mais de 25 anos e ainda descrito como tabu hoje não é coincidência — é ausência de política.

Isso não é motivo para desistir de mudar a própria rotina. É motivo para não aceitar que a mudança individual seja tratada como solução completa de um problema que é, antes de tudo, coletivo.

Fontes

Cada referência abaixo foi conferida na base original antes da publicação.

  1. Qualidade de vida dos médicos 2025 — Afya, 2025
  2. Mulheres Médicas: Burnout durante a Pandemia de COVID-19 no Brasil — Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2022
  3. Violência contra a Mulher
  4. Assédio moral nas residências médica e não médica de um hospital de ensino — Revista Brasileira de Educação Médica, 2012
  5. Rompendo o silêncio: o tabu do suicídio no meio médico — Portal Afya, 2025
  6. Suicídio entre médicos e estudantes de medicina — Revista da Associação Médica Brasileira, 1998

Pare de levar prontuário para casa

Dois minutos de perguntas e você recebe um plano para a sua rotina.

Montar meu plano

Mais sobre bem-estar do médico