
Prontuário em equipe: psicologia, fisio e nutrição juntas
Em equipe multiprofissional, cada categoria tem sua própria regra de registro — e o prontuário compartilhado esconde uma armadilha de sigilo que a LGPD não perdoa.
A HDA genérica é uma das causas mais comuns de glosa — veja como escrever um relato com começo, meio e fim que sustenta o atendimento.


São 23h, o prontuário está aberto e a HDA tem duas linhas. "Paciente com dor abdominal há 3 dias, nega outros sintomas." Você sabe muito mais do que isso — só não escreveu.
Essa é a HDA que mais perde dinheiro: não porque está errada, mas porque está resumida demais para provar o que foi feito. A auditoria não lê sua memória; lê o papel.
Este artigo mostra o que a História da Doença Atual precisa conter segundo a Resolução CFM nº 2.056/2013, e como escrever esse relato completo sem gastar o dobro do tempo.
A Resolução CFM nº 2.056/2013 define a História da Doença Atual como o relato do adoecimento: início, principais sinais e sintomas, tempo de duração, forma de evolução, consequências, tratamentos já realizados, internações e outras informações relevantes.
Note o verbo: relato. Não é lista de sintomas soltos, é narrativa com ordem cronológica — do início do problema até o "agora" do paciente, que é o motivo dele estar na sua frente hoje.
A mesma resolução exige que o prontuário seja preenchido em cada avaliação, em ordem cronológica. A HDA é onde essa cronologia fica mais evidente — ou mais ausente.
Pensando no sintoma principal, a HDA bem construída costuma responder a estas perguntas:
| Elemento | Pergunta que ele responde |
|---|---|
| Localização | Onde exatamente é o sintoma? |
| Características | Como ele se manifesta (tipo, qualidade)? |
| Intensidade | Quanto, em que grau? |
| Cronologia e início | Quando começou, de que forma? |
| Duração e frequência | Por quanto tempo, com que repetição? |
| Situação de ocorrência | Em que contexto aparece? |
| Fatores de melhora/piora | O que alivia, o que agrava? |
Uma HDA que passa por esses sete pontos já tem começo, meio e fim — e é isso que uma auditoria procura quando pede para comprovar o atendimento.

Glosa por documentação insuficiente acontece quando a informação que justificaria o procedimento não está no registro, ainda que o atendimento tenha sido feito corretamente. O problema raramente é a conduta. É que o dossiê que provaria a conduta chegou incompleto. Uma HDA de duas linhas não sustenta, por exemplo, a indicação de um exame complementar que dependia de saber há quanto tempo o sintoma evolui ou o que já foi tentado antes.
Isso tem uma consequência maior do que a glosa pontual: numa sindicância, é o prontuário que o CRM vai ler primeiro. Uma HDA genérica não defende ninguém — nem o médico, nem o paciente.
A HDA completa não precisa de parágrafos longos. Precisa de estrutura. Uma forma prática é escrever seguindo a própria lógica cronológica da queixa, em frases curtas:
Um exemplo de estrutura, sem entrar em conduta clínica:
"Paciente relata dor em [localização] iniciada há [tempo], de caráter [característica], com piora progressiva nos últimos [período]. Nega [sintomas relevantes para a queixa]. Já utilizou [tratamento anterior], com [resultado]. Procura atendimento hoje devido a [motivo da consulta atual]."
Esse formato cobre os sete elementos sem exigir texto corrido longo — e permite que qualquer colega que leia depois reconstrua a história sem precisar perguntar de novo ao paciente.
Uma HDA estruturada assim cumpre dois papéis ao mesmo tempo. Primeiro, sustenta a conduta registrada na sequência do prontuário — porque a indicação passa a ter motivo escrito, não só resultado.
Segundo, funciona como defesa em três cenários diferentes: auditoria de convênio, sindicância no CRM e, no limite, ação judicial — onde o juiz decide sobre documentos, e o prontuário costuma ser o principal deles.
Isso não exige mais tempo de consulta. Exige um formato que já traga os sete elementos na ordem certa, em vez de depender da memória de preencher cada um deles a cada atendimento.
Vale revisar o próprio hábito com três perguntas simples:
Se a resposta for não em qualquer uma delas, a HDA provavelmente está no formato resumo — e é esse formato que mais aparece associado a glosa por documentação insuficiente.
Escrever a HDA como história, e não como lista de sintomas, custa poucos segundos mais por atendimento. O que ela evita — glosa, sindicância arquivada sem defesa, dúvida num processo — custa muito mais do que esses segundos.
Cada referência abaixo foi conferida na base original antes da publicação.
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