UTI: 79,7% dos médicos têm algum nível de esgotamento; veja por quê

O maior levantamento já feito com médicos de UTI no Brasil mostra 79,7% com algum grau de esgotamento — e aponta a especialização como fator de proteção.

Dr. Thiago Rangel
Dr. Thiago Rangel
Médico e fundador da Avora · CRM 52-0119973-0/RJ
23 de setembro de 2026 · 5 min de leitura
Médico de jaleco cirúrgico encostado na parede de um corredor de UTI durante a noite, olhando para baixo em sinal de cansaço

São 3h da manhã e a UTI está cheia. Você troca a dose de uma droga vasoativa, atende o telefone da família do leito 12 e ainda precisa decidir se aquele paciente vai para diálise agora ou espera o plantão da manhã.

Essa cena, repetida todos os dias, tem um nome técnico e um número que a comprova: 79,7% dos médicos que atuam em UTI no Brasil apresentam algum grau de desgaste emocional que pede atenção. É o que mostra o maior levantamento já feito sobre o tema no país, conduzido pela AMIB com 2.338 profissionais nos 26 estados e no Distrito Federal.

Este artigo mostra o que o inquérito encontrou — e o dado mais interessante dele: quem tem especialização formal em Medicina Intensiva sofre menos que quem trabalha em UTI sem esse título. A diferença não é pequena, e ela diz algo sobre o que protege um médico do esgotamento.

O tamanho do problema, em números

O inquérito da AMIB usou a escala que mede a tríade clássica do burnout: exaustão emocional, despersonalização e realização profissional. Os resultados, por dimensão:

Dimensão medida Resultado
Algum grau de esgotamento emocional 79,7% dos médicos
Nível elevado de esgotamento 48,5%
Nível moderado 31,2%
Nível baixo 20,3%
Baixa satisfação profissional 46,4%
Algum grau de despersonalização 45,6%

Despersonalização, aqui, é o termo técnico para um sintoma específico: tratar o paciente com distanciamento frio, quase como um número de leito, não como pessoa. É uma defesa psicológica — e também um sinal de alerta.

Quase metade dos intensivistas brasileiros convive com algum grau disso. Não é fraqueza de caráter. É o que a exposição repetida a decisão crítica, sofrimento e morte tende a produzir.

Dois médicos em uma UTI: um especialista sênior verificando um monitor com expressão tranquila, e um médico generalista mais jovem parecendo sobrecarregado, rodeado de prontuários

Por que a UTI cansa diferente

A prática na terapia intensiva concentra fatores que, sozinhos, aparecem em outras especialidades, mas que nunca aparecem todos no mesmo turno:

  • Carga horária elevada, muitas vezes em múltiplos vínculos
  • Exposição constante a situações críticas — decisão de vida ou morte, sem margem de erro
  • Precariedade de infraestrutura em parte dos serviços
  • Demanda crescente sobre uma rede de leitos que não cresce no mesmo ritmo
  • Confronto diário com dor, sofrimento e morte
  • Decisões que precisam ser rápidas e precisas ao mesmo tempo

Nenhum desses fatores, isoladamente, é exclusivo da UTI. A soma deles, todos os dias, no mesmo turno, é o que a torna diferente de outras especialidades.

A diferença que ninguém esperava: especialização protege

Aqui está o achado mais contraintuitivo do levantamento. Seria razoável supor que quem tem título de especialista em Medicina Intensiva — e, portanto, passa mais tempo dedicado só a isso — estaria mais exposto ao desgaste. O inquérito encontrou o contrário.

Médicos com RQE em Medicina Intensiva apresentaram, em comparação com generalistas que também atuam em UTI:

  • Menor esgotamento emocional — 44,5% de nível alto, contra 52,3% entre os generalistas
  • Menor despersonalização
  • Maior realização pessoal no trabalho

A diferença de quase 8 pontos percentuais em esgotamento alto entre os dois grupos é o tipo de achado que muda a leitura do problema. Uma interpretação possível: o especialista chega com repertório técnico mais consolidado para as decisões rápidas que a terapia intensiva exige. Menos incerteza técnica pode significar menos carga emocional por decisão tomada — mesmo com o mesmo volume de casos graves.

O que fazer com este número

O inquérito da AMIB é um retrato, não uma prescrição. Ele não recomenda conduta clínica nem tratamento — e este texto também não vai fazer isso.

O que ele torna possível é nomear o problema com precisão. Saber que o esgotamento na sua UTI tem nome, medida e comparação com o resto do país já muda a forma como você olha para o próprio cansaço: ele deixa de ser "eu que não aguento" e passa a ser "um padrão nacional, mensurado, com causa identificável".

Três coisas que dão para levar da leitura do levantamento:

  1. O esgotamento na UTI é a regra, não a exceção — quatro em cada cinco intensivistas convivem com algum grau dele.
  2. Especialização formal parece proteger — o dado sugere que preparo técnico reduz carga emocional, não o contrário.
  3. A intensidade da rotina importa — a exposição diária a decisão crítica, sofrimento e morte é o que distingue a terapia intensiva.

Nenhum desses pontos resolve a noite de plantão que já vem cheia. Mas todos eles ajudam a separar o que é inerente à terapia intensiva do que é sobrecarga evitável — e essa distinção é o primeiro passo para qualquer mudança de rotina que faça sentido.

Fica um ponto final que vale registrar: a saúde mental do médico intensivista não é um problema à margem da assistência. É o profissional que decide, em segundos, se um paciente muda de conduta ou não. Cuidar de quem cuida, neste caso, também é cuidado com quem está no leito.

Fontes

Cada referência abaixo foi conferida na base original antes da publicação.

  1. Levantamento AMIB aponta cenário de esgotamento emocional e burnout dos médicos que atuam nas UTIs no Brasil — AMIB (página oficial), 2026

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