Alucinação em IA: quando a máquina inventa e você assina

Alucinação é a IA generativa produzindo informação plausível e errada — veja por que isso acontece e como detectar antes de assinar o prontuário.

Dr. Thiago Rangel
Dr. Thiago Rangel
Médico e fundador da Avora · CRM 52-0119973-0/RJ
10 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Um livro de referência aberto sobre uma mesa vazia, com uma página arrancada e substituída por uma folha em branco que não combina com o resto

A IA escreveu um número no resumo da consulta. Parece certo, está formatado como um dado real, e você quase não confere — mas ele não existe em lugar nenhum.

Isso tem nome: alucinação. É quando um modelo de linguagem gera informação que parece plausível, mas é factualmente incorreta ou simplesmente inventada. Não é bug raro. É consequência da forma como esses modelos funcionam — e por isso não desaparece sozinho.

Este artigo explica o que é alucinação, por que ela acontece mesmo nos modelos mais avançados, e como você confere um texto gerado por IA antes de colocar seu CRM embaixo dele.

Por que a IA inventa informação?

Um modelo de linguagem não consulta uma base de dados para responder. Ele prediz, palavra por palavra, qual é a sequência estatisticamente mais provável dado o que foi perguntado — sem validação contra uma fonte externa e sem compreensão semântica do que está escrevendo.

Isso é a arquitetura em si, não uma falha de configuração. O modelo não distingue, por dentro, entre "isto eu sei" e "isto eu estou completando porque soa coerente". Como registra a literatura sobre LLMs em saúde, essa limitação estrutural é o que torna a alucinação um risco inerente ao uso clínico desses modelos — não um efeito colateral raro.

Na prática, o resultado é um texto gramaticalmente perfeito e factualmente furado. É exatamente essa fluência que torna a alucinação difícil de pegar numa leitura rápida.

Qual é o tamanho do problema em contexto médico?

Estudos desenhados especificamente para medir alucinação em domínio médico mostram o que é de esperar: sistemas de linguagem conseguem ser muito fluentes mesmo quando estão completamente errados.

O Med-HALT, teste específico para alucinação em cenários clínicos, avaliou modelos de linguagem e mostrou que mesmo os sistemas mais usados não estão imunes a gerar respostas incorretas apresentadas com confiança — é a base do paper apresentado na CoNLL 2023.

A vulnerabilidade que isso expõe é consistente: a confiança na resposta não é indicador de precisão. O texto errado sai tão fluente quanto o certo. E pequenas alterações na forma como a informação é apresentada — ataques adversariais, como a literatura chama — já bastam para induzir o modelo a erro.

O que isso significa na prática
O modelo pode repetir um erro que já estava no texto de entrada, em vez de corrigi-lo
Confiança na resposta não é indicador de precisão — o texto errado sai tão fluente quanto o certo
Nenhum modelo testado nos estudos disponíveis ficou livre do problema — é uma questão de grau, não de exceção

Mãos seguram uma lupa sobre um documento impresso em uma mesa, examinando uma linha destacada no texto

A referência que parece real — mas não existe

Um dos formatos mais traiçoeiros de alucinação é a citação fabricada: a IA produz um nome de autor, um ano, um título de revista e até um formato de DOI — tudo com aparência de referência acadêmica legítima.

O problema é que isso não é incomum. É justamente o tipo de erro que a literatura sobre uso de LLMs em apoio à pesquisa médica já registrou com frequência relevante — e é por isso que toda citação gerada por IA merece ser clicada, não só lida.

Na prática, há dois sinais que entregam a fabricação:

  • O link não abre, ou abre para algo que não tem relação com o que foi citado.
  • A combinação de autor, ano e revista não aparece em nenhuma busca — nem no Google Scholar, nem no PubMed.

Como detectar antes de assinar

Alucinação não se resolve perguntando de novo para a mesma IA — ela pode repetir o mesmo erro com outras palavras. A conferência precisa ser fora do modelo.

  1. Confira a fonte original de todo número, lei, referência ou data — não a reformulação da IA sobre ela.
  2. Repare em misturas de período. Se a resposta combina uma informação de 2019 com outra de 2024 como se fosse a mesma época, é sinal de alerta.
  3. Desconfie do detalhe específico demais que não vem acompanhado de nenhuma referência checável — número exato, nome próprio, percentual preciso.
  4. Peça a fonte de cada afirmação factual. Se a IA não conseguir indicar de onde veio, ou indicar algo que não existe, o dado não entra no seu texto.

Prompt de mitigação ajuda — mas não resolve

Existem técnicas de prompt desenhadas para reduzir alucinação: pedir que o modelo cite a fonte antes de afirmar, pedir que ele assuma incerteza quando não tiver certeza, pedir resposta apenas com base no texto fornecido.

Essas técnicas funcionam — elas reduzem a frequência de erro. O que elas não fazem é eliminar o risco. A arquitetura do modelo continua sendo preditiva, não factual, e isso não muda por causa da forma como a pergunta foi escrita.

Por isso a conferência humana não é uma etapa que vira dispensável com o prompt certo. Ela é estrutural — faz parte de como esse tipo de ferramenta precisa ser usado, não uma camada extra de cautela.

O que isso tem a ver com o seu prontuário

A Resolução CFM nº 2.454/2026 trata exatamente desse ponto. O Art. 4º estabelece que o médico deve exercer julgamento crítico sobre o que a IA produz e registrar no prontuário o uso de IA como apoio à decisão (inciso V).

E o Art. 3º, inciso V traz a contrapartida: o médico tem proteção contra responsabilização indevida por falha exclusiva da ferramenta, desde que comprovado o uso diligente. Revisar o que foi gerado, linha por linha, antes de assinar, não é burocracia — é o que sustenta essa proteção.

Isso vale tanto para uma IA de pesquisa clínica quanto para uma ferramenta de documentação que redige o resumo da consulta. A lógica é a mesma: o texto gerado é rascunho até você confirmar que está correto.

Uma régua simples para usar hoje

Pergunta a fazer antes de aceitar o texto O que ela revela
Esse número eu já vi em algum lugar confiável? Se não, confira a fonte antes de usar
Essa citação abre para algo real? Clique — link morto é sinal de alucinação
A informação é específica demais sem origem clara? Desconfie de detalhe sem referência
Eu perguntaria "de onde você tirou isso?" e a resposta me convenceria? Se não, o dado não entra

Para documentação clínica, isso aponta a diferença que importa na escolha de uma ferramenta: ela deve deixar visível o que veio da fala do paciente e o que foi composto pela IA, e permitir que você edite livremente antes de salvar. Um sistema que esconde essa distinção dificulta exatamente a verificação que o Art. 4º pede.

Fontes

Cada referência abaixo foi conferida na base original antes da publicação.

  1. Multi-model assurance analysis showing large language models are highly vulnerable to adversarial hallucination attacks during clinical decision support — Communications Medicine, 2025
  2. Large Language Models in Healthcare and Medical Domain: A Review — Informatics, 2024
  3. Med-HALT: Medical Domain Hallucination Test for Large Language Models — Proceedings of the 27th Conference on Computational Natural Language Learning (CoNLL), 2023

Pare de levar prontuário para casa

Dois minutos de perguntas e você recebe um plano para a sua rotina.

Montar meu plano

Mais sobre ia na medicina