5,9 horas no prontuário: o estudo que explica sua rotina

O estudo que mediu, minuto a minuto, quanto da jornada do médico de atenção primária é consumida pelo prontuário eletrônico.

Dr. Thiago Rangel
Dr. Thiago Rangel
Médico e fundador da Avora · CRM 52-0119973-0/RJ
01 de outubro de 2026 · 5 min de leitura
Um relógio analógico quebrado em duas partes desiguais, deitado sobre uma mesa vazia iluminada por um abajur, sem nenhuma pessoa na cena

Você termina de atender às 18h e só sai do consultório às 20h. Não teve mais nenhum paciente depois das 18h — teve prontuário.

Um estudo americano mediu isso, literalmente, minuto a minuto. E o número que encontrou é o motivo pelo qual seu dia não acaba quando o último paciente vai embora.

Este artigo mostra o que a pesquisa mediu, o que ela significa para quem atende aqui no Brasil, e onde a ciência já tem resposta — e onde ainda não tem.

O que o estudo mediu, exatamente

O trabalho se chama Tethered to the EHR: Primary Care Physician Workload Assessment Using EHR Event Log Data and Time-Motion Observations, publicado em 2017 na Annals of Family Medicine (DOI 10.1370/afm.2121).

A metodologia é o que dá peso ao número: os autores não perguntaram para os médicos quanto tempo eles achavam que gastavam. Cruzaram registros de evento do próprio sistema eletrônico com observação direta, cronômetro na mão. É medição, não estimativa.

O resultado: de uma jornada de 11,4 horas, 5,9 horas foram dentro do prontuário. Divididas assim:

Quando Tempo no prontuário
Durante o expediente, com paciente na sala 4,5 horas
Depois do expediente, em casa 1,4 hora
Total da jornada 5,9 horas

Ou seja: mais da metade de um dia de trabalho de 11,4 horas se passa dentro de uma tela, não na frente de um paciente.

Não é um caso isolado — é um padrão

Quem olha só para esse número pode achar que é exagero de uma amostra específica. Não é. Outro estudo, de metodologia parecida, chegou a uma conclusão na mesma direção.

Allocation of Physician Time in Ambulatory Practice, publicado em 2016 na Annals of Internal Medicine (DOI 10.7326/m16-0961), também usou observação direta e encontrou que médicos gastam 2,3 horas de trabalho administrativo a cada 8 horas de assistência — quase 1 hora extra em casa, à noite, depois do expediente oficial terminar.

Dois estudos, duas metodologias de medição direta, o mesmo achado de fundo: o prontuário não cabe dentro do horário de trabalho. Ele vaza para a noite.

Mãos digitando em um teclado de computador em uma mesa de consultório, com uma pilha de prontuários de papel empurrada para o lado

Por que ele vaza para casa

O nome que a literatura dá para esse vazamento é "pajama time" — o tempo de prontuário feito em casa, depois do expediente, de pijama.

Não é anedota. É medido. Um levantamento com residentes de medicina de família encontrou que 32,3% relataram passar mais de 3 horas por noite nessa rotina. E a mesma linha de pesquisa, em ciclo anterior, já tinha identificado proporção parecida: 33,6% com o mesmo padrão de mais de 3 horas por noite. O número não é um pico isolado — é uma faixa que se repete.

A consequência documentada desse excesso, segundo o mesmo corpo de pesquisa, é associação com notas menores em prova, menos satisfação com a residência e mais chance de burnout.

O que isso explica na sua rotina

Se você chega em casa e ainda tem prontuário para fechar, não é falta de organização sua. É o que o estudo descreve como padrão estrutural do uso do prontuário eletrônico na atenção primária.

Vale separar duas coisas que costumam se misturar:

  • O prontuário em si — necessário, insubstituível, parte do cuidado.
  • O formato de digitação manual, campo por campo — que consome o tempo que o estudo mediu.

O problema não é documentar. É quanto tempo a digitação manual consome para produzir a mesma documentação.

O que já tem resposta — e o que ainda não tem

Aqui é importante ser preciso sobre o que a ciência já provou e o que ainda está em aberto.

Um estudo publicado em 2025 na JAMA Network Open (DOI 10.1001/jamanetworkopen.2025.34976) testou scribes de inteligência artificial — ferramentas que escutam a consulta e geram o rascunho do prontuário — e mediu o efeito depois de 30 dias de uso:

  • Redução de 30 minutos por dia de documentação por profissional.
  • 8,5% menos tempo no prontuário eletrônico em relação ao grupo de controle.
  • Mais de 15% menos tempo redigindo a nota.
  • A proporção de profissionais em burnout caiu de 51,9% para 38,8%.

Isso é evidência real, de estudo controlado, sobre carga de trabalho e experiência do profissional. É forte.

O que esse mesmo estudo não prova — e aqui vale honestidade completa — é melhora em desfecho de saúde do paciente. A evidência nessa frente ainda é restrita a centro único e é considerada fraca. A literatura sustenta ganho de tempo. Não sustenta, até aqui, paciente mais saudável.

O que fazer com esse número hoje

Não dá para zerar as 5,9 horas. Mas dá para entender onde elas se concentram e decidir, com informação, o que é prontuário essencial e o que é retrabalho de digitação:

  1. Cronometre uma semana real. Não de memória — anote o horário em que fecha o último prontuário, por 5 dias.
  2. Separe o que é clínico do que é redação. Pensar no caso é parte do trabalho. Digitar frase por frase é o que a tecnologia já ataca.
  3. Compare com o que a evidência mostra ser possível. Trinta minutos por dia, como no estudo da JAMA, não é promessa — é o que foi medido depois de 30 dias de uso real.

O estudo de 2017 não é sobre má gestão de tempo. É sobre o formato do trabalho. E formato é a única parte dessa equação que, dez anos depois, já tem alternativa testada.

Fontes

Cada referência abaixo foi conferida na base original antes da publicação.

  1. Tethered to the EHR: Primary Care Physician Workload Assessment Using EHR Event Log Data and Time-Motion Observations — The Annals of Family Medicine, 2017
  2. Allocation of Physician Time in Ambulatory Practice: A Time and Motion Study in 4 Specialties — Annals of Internal Medicine, 2016
  3. Pajama time and burnout: the burden of after-hours electronic health record use on family medicine residents — Academic Medicine (ou Family Medicine/ABFM), 2024

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