45% dos médicos têm transtorno mental: o que 6 meses revelam

O percentual de médicos com transtorno mental subiu 13% em seis meses — e a explicação mais provável não é uma epidemia nova, é um diagnóstico que chegou atrasado.

Dr. Thiago Rangel
Dr. Thiago Rangel
Médico e fundador da Avora · CRM 52-0119973-0/RJ
22 de setembro de 2026 · 6 min de leitura
Ilustração de um médico sentado sozinho em um corredor de hospital à noite, olhando para baixo, com um copo de café nas mãos

Você já deve ter visto o número circulando: 45% dos médicos brasileiros têm algum transtorno mental. A reação mais comum é a mesma há anos — "isso não é novidade, todo mundo sabe que a medicina adoece". E o número, sozinho, parece confirmar isso.

Mas ele não está sozinho. Ele subiu 13% em apenas seis meses. E essa parte muda a leitura inteira.

Este artigo é sobre o que esse salto realmente diz — e por que ele pode ser, ao mesmo tempo, uma notícia melhor e uma notícia pior do que parece.

O que a pesquisa realmente encontrou

O dado vem do estudo Qualidade de Vida dos Médicos 2025, da Afya, com 2.147 médicos respondentes, divulgado em setembro de 2025.

O achado central: 45% dos médicos relatam ao menos um transtorno mental — ansiedade, depressão ou burnout. Esse número é idêntico ao registrado em 2022, no auge do pós-pandemia.

A parte que chama atenção não é o patamar — é a velocidade. Na pesquisa anterior, feita entre julho e agosto de 2024, o índice era menor. Em seis meses, ele subiu 13%.

Não houve um evento entre essas duas medições que explicasse uma piora tão rápida na saúde mental de uma profissão inteira. E é aí que entra a hipótese mais provável.

A hipótese: não é mais gente doente, é mais gente diagnosticada

A explicação que os próprios pesquisadores apontam como mais plausível não é uma epidemia súbita. É o aumento da conscientização sobre saúde mental levando mais médicos a reconhecerem sintomas que já tinham e procurarem diagnóstico.

Faz sentido olhando o que a pesquisa mostra dentro dos 45%:

  • Ansiedade é o transtorno mais comum, afetando 40% dos médicos — com 23,3% relatando sintomas nos últimos 12 meses.
  • Depressão e burnout completam o quadro, em proporções menores.
  • O recorte por idade é revelador: até 35 anos, cerca de 50% dos médicos têm diagnóstico. A partir dos 56, essa taxa cai significativamente. Isso não significa que médico mais velho sofreu menos — significa, com mais probabilidade, que médico mais velho cresceu numa época em que procurar diagnóstico ainda era tabu, e essa geração não nomeou o que sentia.

Ilustração de um gráfico em ascensão em uma prancheta, com um estetoscópio apoiado sobre o papel

O recorte que mais diz sobre a mudança: as médicas

Entre as médicas, o diagnóstico passou de 46,8% em 2024 para 51,8% em 2025 — um salto de 5 pontos percentuais em um ano.

Não é um dado sobre médicas adoecendo mais rápido que médicos. É um dado sobre quem está chegando à consulta e nomeando o que sente, num intervalo curto o suficiente para não ser explicado por mudança real de causa.

Por que isso não é uma boa notícia disfarçada

Aqui está o ponto que costuma passar batido: mais diagnóstico é positivo — sofrimento identificado pode ser tratado, sofrimento silencioso não. Até aqui, a notícia é boa.

O problema é o que o número não muda: a rotina que produz esse sofrimento continua a mesma. O diagnóstico chegando mais rápido não significa que a causa ficou mais leve.

E o contexto brasileiro não ajuda a pensar que isso é um problema isolado da medicina. A saúde mental está entre os desafios de massa do país — burnout afeta trabalhadores de diferentes setores, ansiedade é amplamente relatada. Se a medicina aparece no mesmo patamar de 2022, não é sinal de que a categoria melhorou. É sinal de que a estrutura que gera o sofrimento continua intacta.

O que fica igual quando o diagnóstico melhora, mas a rotina não

Vale separar duas coisas que a pesquisa mistura sem querer:

  1. A conscientização melhorou. Médicos mais jovens, e médicas em especial, estão nomeando o que sentem com mais frequência do que há um ano.
  2. A causa não foi tocada. Carga horária, volume de burocracia, ambiente de trabalho — nada disso está descrito como tendo melhorado no mesmo período.

É esse descompasso que faz o número de 45% ser, ao mesmo tempo, um sinal de progresso e um sinal de alerta. O progresso está em quem procura ajuda mais rápido. O alerta está em que a estrutura continua gerando o mesmo volume de sofrimento — só que agora, visível.

O que fazer com isso, na prática

Não é papel deste texto sugerir conduta clínica ou tratamento — isso é conversa entre você e quem te acompanha. Mas há uma leitura de rotina que vale levar:

  • Se você reconhece os sintomas descritos aqui, você não está sozinho — e não está exagerando. O dado mostra que reconhecer é a etapa que mais cresceu no último ano.
  • A causa estrutural continua ativa. Buscar diagnóstico é o primeiro passo, mas não substitui olhar para o que na rotina diária está gerando a exaustão.
  • Quem atua na linha de frente — UTI, emergência, alta demanda — tende a estar mais exposto, e vale atenção redobrada aí.

Nenhum desses pontos promete resolver o problema. Eles só descrevem, com honestidade, o que os números permitem dizer.

Um número que ainda vai crescer — e isso pode ser um bom sinal

Se a hipótese da conscientização estiver certa, é bem possível que o índice de 45% continue subindo nas próximas pesquisas, sem que isso signifique que a profissão está piorando na mesma velocidade.

Vai significar, principalmente, que mais médicos estão fazendo o que antes evitavam: procurar ajuda e dar nome ao que sentem. A pergunta que continua sem resposta é se as condições de trabalho vão mudar na mesma velocidade que a consciência sobre elas.

Enquanto a rotina de plantão, prontuário e carga administrativa não mudar de fato, o diagnóstico crescendo é sintoma de progresso num ponto — e de estagnação em outro, exatamente ao mesmo tempo.

Fontes

Cada referência abaixo foi conferida na base original antes da publicação.

  1. Qualidade de vida dos médicos 2025 — Afya (Research and Innovation Center) / APM, 2025

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